quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Um professor coimbrão renascentista


 

                                              B A R T O L O M E U    F I L I P E

 

    TRACTADO  DEL  CONSEIO  Y  DE  LOS  CONSEIEIROS DE  LOS  PRINCIPES.  SEGUNDA  IMPRESSION.  TURINO, GIO: UINCENZO  DEL  PERNETTO, 1589. (1)

 

     Como ressalta da portada, trata-se da segunda edição desta obra do Dr. Bartolomeu Filipe. A primeira edição saiu dos prelos de António de Mariz, em Coimbra, em 1584, e vem descrita no catálogo da Biblioteca de M. Fernando Palha, sob o nº 411 e  António Joaquim Anselmo descreve-a sob o nº 885 ( In BIBLIOGRAFIA DAS OBRAS IMPRESSAS EM PORTUGAL NO SÉCULO XVI, pág. 256).

        Ao frontispício segue-se a carta em italiano do impressor, dirigida ao autor, datada de Turim,19 de Fevereiro de 1589, a que se segue a carta nuncupatória, dirigida ao Cardeal Alberto, que então governava Portugal em nome do rei espanhol. No verso do último fólio da carta, começa o índice alfabético dos autores citados e no verso do último fólio vem o título dos dezoito discursos, como o autor lhes chama, que compõem a obra. Em fólio próprio, mas no verso, tem as licenças da edição de Coimbra.

      Na parte final da carta, Bartolomeu Filipe lamenta-se ter ido a Madrid, apesar dos seus sessenta anos, pedir autorização ao conselho real para publicar as suas obras em Salamanca ou Valladolid e lhe ter sido negada. Consegui-a em Portugal para esta obra, que, em Agosto de 1583, foi submetida a exame pelos catedráticos de prima de leis, cânones e teologia, da universidade de Coimbra.  

    Foi pena que até hoje, os que se debruçaram sobre este autor não tenham dado a merecida importância a todo o texto da carta nuncupatória, porque se o tivessem feito, penso, não teriam andado tanto à deriva no que respeita à biografia do autor. É que este escreve que, com sessenta anos, teve que ir a Madrid pedir autorização para publicar as suas obras. Ora isso só pode ter acontecido depois de 13 de Fevereiro de 1583, data em que o rei espanhol regressou à sua terra. E foi com toda a certeza nesse ano; pois em Agosto já estava a obra a ser examinada pelos catedráticos da Universidade de Coimbra. Certamente, com a expressão sessenta anos queria significar ser sexagenário, andava na casa dos sessenta anos. Porque, na mesma carta, lembra que compôs a enorme quantidade livros que enumera, durante 50 anos, desde 1536 até 1584, depois de ter lido durante 20 anos nas Universidades de Lisboa, Salamanca e Coimbra, tendo cessado a actividade docente há 30 anos. Em 1536, foi impressa em Salamanca, onde então se encontrava, a sua primeira obra , cuja escrita deverá ter sido iniciada em 1534. Obra que se encontra descrita por Francisco de  Leite Faria, sob o nº 365- Eruditum et Engeniosum  de Fictionibus  Opusculum ( In Estudos Bibliográficos sobre Damião de Góis e a sua Época, Lisboa, 1977,pág.422).

Quanto à sua passagem pela Universidade de Lisboa, não se encontram registos, mas encontram-se do pai, Mestre Filipe, doutor de medicina. No entanto, esse facto não impede de se conjecturar, face à sua informação, que deverá ter sido na Universidade de Lisboa que fez o bacharelato em Artes, indispensável para se matricular em Cânones, o que fez em Salamanca. O que deve ter ocorrido no ano de 1531. Pois que, em 28 de Agosto de 1534 obtém o bacharelato em direito canónico  ( Veríssimo Serrão, obr. cit. pág 284). Sendo certo que este grau académico só era concedido  ao fim de três anos de estudo, Alem disso, em carta datada de Salamanca, 28 de Setembro de 1532, Baltazar de Teive escreve a Rodrigo Sanches, respondendo à carta que lhe havia enviado de Lisboa, por intermédio de Bartolomeu Filipe,  a quem  se refere como sendo ”um adolescente, velho amigo meu”( Obr. cit.,  pág.429) . Ao tratar daquele modo o amigo, infere-se que eram companheiros em Salamanca mas também teriam sido em Lisboa. Doutra forma, não se compreenderia que o incluísse no rol dos seus  velhos amigos.

   Em 30 de Julho de 1537, torna-se também bacharel em Direito Civil ( obr. cit., pág. 284). Mas, no ano seguinte, já se encontra em Portugal e na Universidade de Coimbra. Pois , em 7 de Outubro de 1538, o bacharel Bartolomeu Filipe começou a ler( Mário Brandão, Actas dos Conselhos da Universidade de 1537 a 1557, vol. I, pág. 33). Em Outubro do ano seguinte, já nos aparece, não o bacharel, mas o doutor Bartolomeu Filipe, como lente de Cânones (  obr. cit. , pág. 59). Pois, D. João III, por alvará de 13 de Outubro de 1539, “ por confiar do saber e letras do doutor bertolameu felipe  ey por bem e me praz  que elle lea huma lição de canones de cadeira piquena”( Mário Brandão, Documentos de D. João III, vol. I, pág.215).

    Entretanto, no ano de 1539 publica a sua segunda obra, mas em Lisboa, a qual vem descrita por António Joaquim Anselmo sob o nº 1007 – Repetitio in Canone  Scindite corda vestra de Penitentia. Distinctio prima( obr. cit., pág. 294-5).

    Por alvará de 7 de Setembro de 1542, o rei ordena  que o doutor Bartolomeu Filipe leia por três anos uma cadeira de Cânones ( obr. cit., vol. II, pág.97).

    Por alvará de 16 de Setembro de 1547, D. João III manda o doutor Bartolomeu Filipe ler a cadeira de Decreto por tempo de três anos ( obr. cit., vol. III, pág. 95).

    Por alvará de 21 de Fevereiro de 1554, D. João III  manda que o doutor Bartolomeu Filipe continue a ler a cadeira de Decreto, “ enquanto não mandar o contrário” ( 0br. cit. Vol. IV, pág.215).

    No conselho de 31 de Julho de 1554, o doutor Bartolomeu Filipe é multado “ em huma dobra de trezentos e setenta reis, porque não acompanhou o Reitor a misa e pregação quando se ajunta a universidade em santa cruz” ( Actas dos Conselhos da Universidade, Vol. II, II Parte, pág.234). 

    Na carta nuncupatória da obra em apreço, o doutor Bartolomeu Filipe informa-nos que havia deixado o ensino há 30 anos, com referência a 1584, para se dedicar por inteiro à escrita dos seus livros, que pretendia publicar. A ser verdadeira aquela afirmação do autor, este cessou a docência em 1554, apesar do rei lhe ter ordenado que continuasse a ler” enquanto não mandasse o contrário”. Esta expressão régia deverá querer significar que, ao fim e ao cabo, o rei lhe concedia a titularidade da cadeira enquanto a pudesse ler. Daí Leitão Ferreira  nos dizer que até ao ano de 1589- um ano antes de falecer- “ se acham memórias suas nos livros da Universidade, e por  “Doutor insigníssimo o nomeiam alguns assentos”( Notícias Chronologicas da Universidade de Coimbra, Segunda parte, Vol. I, pág.178).

    Barbosa Machado escreve que Bartolomeu Filipe faleceu com 110 anos de idade ( Biblioteca Lusitana, Vol. I, pág.453). Tendo o catedrático coimbrão falecido em Coimbra, em 25 de Outubro de 1590, se, na verdade, tivesse andado neste mundo todos aqueles anos, teria nascido em 1480. E são estes os dados biográficos que a BNP nos fornece . No entanto, se tivermos presente os elementos por ele fornecidos na carta nuncupatória e o conteúdo da carta do seu amigo, acima referida, facilmente concluímos que Bartolomeu Filipe não nasceu em fins do século XV, mas na primeira vintena do século seguinte, muito provavelmente em 1513 ou 1514, levando em linha de conta, que também D. Jerónimo Osório foi para Salamanca, aos 13 anos, como ficou referido no volume II deste meu despretensioso trabalho ( pág. 109). E o célebre humanista Diogo de Teive foi estudar para Paris com a idade de 12 anos ( Mário Brandão, O processo na Inquisição de Mestre  Diogo de Teive, Coimbra,1943, pág.3). Com a mesma idade deve ter ido Bartolomeu Filipe para os Estudos Gerais de Lisboa, isto é, em 1526 ou 1527, não esquecendo que em 1531 estava em Salamanca a cursar Cânones. E aí encontrou certamente o futuro bispo do Algarve, embora por pouco tempo. Além disso, não nos podemos esquecer que seu pai era aí professor, tendo adquirido o grau de Doutor em Medicina em 22 de Junho de 1511 ( Auctarium Chartularii Universitatis Portugalensis, vol I, pág. 181). E, consultando a mesma obra, constatamos que em 1535 ainda participava nos actos universitários. Por isso, nada mais natural que o filho tivesse ido frequentar a escola, onde o pai também era docente.

    Na carta nuncupatória, o Doutor Bartolomeu Filipe, depois enumerar variadíssimas obras, escritas em latim, presume-se, refere muitas outras, redigidas em romance, todas prontas, naquele ano de 1584, para serem impressas. Ao falar em romance, estava, com toda a certeza, a aludir à língua castelhana, uma vez que foi nesse idioma que escreveu a que, então, estava a ser impressa em Coimbra. No entanto, todas deverão ter desaparecido, porque não se conhece o rasto de nenhuma.

    No Discurso Terceiro desta obra, Bartolomeu Filipe, muito embora entendesse que, por direito, era o rei de Espanha que deveria suceder no trono de Portugal, não o disse publicamente, porque, para além de ser velho, pobre e sem descendência, não queria que pensassem que esperava algum benefício. No entanto, depois do soberano ocupar o trono de Portugal, fê-lo num tratado que compôs sobre a “Sucessão do Reino de Portugal” que não foi impresso porque lhe não concederam licença para o fazer ( fól.10-11). O que vem contrariar a tese do grande Professor Veríssimo Serrão, quando afirma que Bartolomeu Filipe “ foi um dos mais zelosos adeptos da política de Cristóvão de Moura, prestando serviços, em 1580, à causa filipina (Portugueses no Estudo de Salamanca, pág.285). Se a asserção do ilustre professor tivesse fundamento, não se encontraria explicação para a recusa que recebeu em Madrid para a publicação dos livros, que tinha prontos para enviar para os prelos das universidades de Salamanca ou Valladolid, como acima se referiu. Penso que, porque não tornou pública a sua posição, quanto à causa da sucessão dinástica, antes da sua consumação, é que sentiu necessidade de dedicar a obra ao Cardeal Alberto, representante do rei espanhol em Portugal.

    Como acima se deixou dito, Bartolomeu Filipe foi intermediário no relacionamento epistolar entre Baltazar de Teive e Rodrigo Sanches, dois conhecidos humanistas das suas relações, bem como o irmão deste, Pedro Sanches. Pois, Bartolomeu Filipe também era um humanista. Basta ler o elenco de autores, gregos e romanos, que cita na sua obra, para facilmente chegar a essa conclusão. Mas, Bartolomeu Filipe também se carteava com outros famosos humanistas portugueses, seus contemporâneos, como Jerónimo Cardoso. Os quais, por sua vez, relacionavam-se com o famoso escol literário feminino, em que se integrava a Infanta D. Maria, as irmãs Sigea, Luisa(2) e Ângela, Paula Vicente, filha de Gil Vicente, a conimbricense Joana Vaz e, mais tarde, Públia Hortênsia de Castro, de Vila Viçosa.

      Uma carta, datada do quarto dia das calendas de Março de 1539, dirigida a Jerónimo Cardoso, Bartolomeu Filipe termina-a com estas palavras : “ Ceterum , opto ut quod facis  perpetuo facias, Lusitanam iuuentutem  doctrina , moribus, pietate instituas, rem non minori tibi ac patriae ornamento futuram  - Quanto ao mais, peço-te que faças sempre o que já fazes: que formes a juventude portuguesa no saber, nos costumes, na virtude, trabalho que será para ti uma glória não menor do que para a pátria” ( Jerónimo Cardoso, Obra Literária, Tomo I, pág.159).   

    Não tenho a menor dúvida de que, se as cerca de cem obras que afirma ter escrito, houvessem sido impressas, Bartolomeu Filipe seria bem mais conhecido, até como humanista, que realmente era.  

 

 1)   Há quem sustente que os nomes do impressor e do local de impressão sejam falsos. O livro terá sido impresso em Londres por John Wolfe e não em Turim por Vincenzo del Pernetto, seu pseudónimo.

 

 

(2) - Luísa Sigea, em 1546, escreve ao papa Paulo III uma carta em latim. grego, hebraico, caldeu e árabe, mas só é conhecida a versão latina( Léon Bourdon & Odette Sauvage in Bulletin des Etudes Portugaises Tome 31,1970,pág.38). Frey Fernando da Soledade referir-se-á às duas irmãs nestes termos : “ Tem criado  sugeytos ilustres  em letras, entre os quaes  por sua singularidade se eterniza na fama o nome de Luisa Sigea, mulher preclara em diversas erudições , & faculdades. Esta escreveu huma carta  ao Summo Pontifice Paulo III nas línguas  Latina,Grega, Hebrayca, Caldaica, & Arabiga: à qual respondeu o Vigario de Christo com um Breve cheyo de aplausos, & favores espirituais… Era Luisa Sigea  Donzella da Infanta D. Maria filha delRey D. Manoel, em cujo serviço também  assistia outra irmã sua, chamada Angela Sigea, igual no engenho, mas superior na Musica, em que se constituhio eminente” ( Historia Serafica Chronologica da Ordem de S. Francisco na Provincia de Portugal, Tomo IV, Manoel & Joseph Lopes Ferreyra,1709, pág. 419). Às irmãs Sigea e à infanta D. Maria refere-se o flamengo João Vaseu ( Jean Was) – de quem me ocuparei mais adiante – na sua célebre obra, impressa em Salamanca em 1552, “  Chronici Rerum Memorabilium  Hispaniae Tomus Prior,no fólio 19. E a todas, Carolina Michaëlis de Vasconcellos em “ A Infanta D. Maria de Portugal e as Suas Damas, Porto, 1902”. 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

OS LUSÍADAS


OS  LUSIADAS  DE  LUIS  DE  CAMÕES.Agora de nouo impresso, com algumas Annotacões , de diversos Autores. Com licença do Supremo Conselho da Santa e Geral Inquisição, por Manoel de Lyra. Em Lisboa Anno de 1584.

     É um exemplar da 2ª edição de  OS  LUSÍADAS. Hoje é ponto assente que a 1ª edição é a de 1572, por António Gonçalves, com a gravura em que a cabeça do pelicano está voltada para a esquerda do leitor e as estrias das duas colunas se apresentam no sentindo descendente da esquerda para a direita. A do pelicano, com a cabeça virada para a direita do leitor e com as estrias das duas colunas no sentindo descendente da direita para a esquerda, é posterior à de 1584 e saiu como reacção a esta, grandemente mutilada pela inquisição, como adiante se demonstrará.

    Ao centro, a portada ostenta a marca do impressor: Orfeu, coroado de louro, tocando violino para um veado e para um leão e com as palavras non vi, sed ingenio et arte, dentro de uma linha oval. Seguem-se as licenças e a taboada, e, a esta, uma nova gravura, mas agora com linha oval emoldurada, tendo na parte superior Diana recostada num veado e por baixo a legenda MUSIS  SACRUM; e na parte inferior as letras M  L .

  Esta edição também é conhecida pela edição dos piscos. O que se deve ao comentário do fólio 76, onde, comentando o verso E a piscosa Cizimbra…  , se escreve: Chama piscosa, porque em certo tempo se ajunta ali grande cantidade de piscos, pera se passarem a Affrica..O étimo latino de piscosa é piscosus-a-um, que significa abundante em peixe. Cesimbra já nesse tempo era terra de pescadores, e não ponto de encontro do lindo pássaro, chamado pisco, como pretendia o ignorante comentador de OS  LUSÍADAS.

  A imortal obra do nosso incomparável poeta foi barbaramente truncada pela inquisição nesta edição.Sem, para já, abordarmos as ínumeras alterações do texto, não podemos esquecer o grande número de estrofes ou estâncias que foram pura e simplesmente suprimidas e, no Canto II, a estância, que se segue, com o número 33, não existe na edição prínceps nem em nenhuma outra, por mim consultada:

 

                                        Oraua o ilustre Gama desta sorte.

                                        Quando huma voz ouuio que do alto vinha

                                        Dizendolhe,Não temas ver a morte

                                        Tão propínqua a ti, e tão vezinha,

                                        Animate, e esforça varão forte,

                                        Que tal empresa, a talvarão conuinha,  

                                        Ouuindo isto o Gama a tento estaua,

                                         E a voz que bem se ouuia,assi soaua.

      

 

No mesmo canto faltam as estrofes 33 – Ouuiolhe estas palavras piadosas -  a 43 – E co seu apertando o rosto amado. Por isso, nesta edição, o Canto II tem apenas 103 estrofes enquanto a princeps tem 113. Faltam 11 estrofes a este canto.

 

 No Canto  III falta a última estrofe, a 143 – Quem vio hum olhar seguro, hum gesto brando.

 

 No Canto V faltam as estrofes 19 – Eu o vi certamente e não presumo – , 20 – Hiase pouco e pouco acrecentando – e 55 – Ia nescio, ja da guerra desistindo.

 

No Canto VI falta a estrofe 59 – Mas aquella a quem fora em sorte dado .

 

 No Canto IX faltam as estrofes 71 – De huma os cabelos de ouro o vento leva-, 72 – Outros por outra parte vão topar –,73 – Outra como acudindo mais depressa –, 78 –Nam canses, que me cansas: e se queres - e 83 – O que famintos beijos na floresta.

 

 

 

 No Canto X faltam as estrofes 25 – Mas tu de quem ficou tão mal pagado -, 83 – E tambem porque a sancta prouidencia,-, 84 – Quer logo aqui a pintura, que varia – e 119-E vós outros, que os nomes usurpaes .

 

     Para além da supressão das mencionadas 25 estrofes ou estâncias e da inclusão da espúria 33 do canto II, há incontáveis alterações do texto, como já se deixou dito. No entanto, só me referirei às mais significativas, tendo em vista o que pretendo demonstrar: que a edição do pelicano com a cabeça voltada para a direita do leitor é posterior à dos “Piscos”, sendo esta, por consequência, a verdadeira 2º edição da imortal obra.

 

  No Canto II, na estrofe ou estância 44 da edição prínceps, lemos:

 

                               Fermosa filha minha não temais

                               Perigo algum, nos vossos Lusitanos,

                               Nem que ninguem comigo possa mais,

                               Que estes chorosos olhos soberanos

                               Que eu vos prometo filha que vejais

                               Esqueceremse Gregos e Romanos,

                               Pelos ilustres feitos que esta gente,

                               Há de fazer nas partes do Oriente.

 

Enquanto, na dos “ Piscos”, fol.40 v. estrofe 34, escreveu-se :

                           

                                Famosos Portugueses não temais

                                Perigo algum jamais em Lusitanos

                                Nem que nenhum que eles possa mais

                                Em quantas gerações ouuer de humanos

                                Que vos fico amigos que vejais

                                Esqueceremse Gregos e Romanos

                                Pellos illustres feitos que essa gente

                                Há de fazer nas partes de Oriente.

 

 

   No Canto III, na estrofe 34, Camões escreveu : Eis se ajunta o soberbo castelhano,. Na dos “ Piscos” vem : Eis se ajunta o valente castelhano.

 

   No Canto IV, na estrofe 24, o Poeta escreveu: Dom Nuno Aluares digo, verdadeiro/ Açoute de soberbos Castelhanos. Na dos “Piscos” saiu:  Dom Nuno Aluares digo, verdadeiro/ Exemplo de valentes Castelhanos.

 

    Na estrofe 40 do mesmo canto, nos versos 7 e 8, escreveu o Poeta: Os Pereiras também arrenegados/ Morrem , arrenegando o Ceo e os fados.  Na dos “Piscos” escreveu-se: Os Pereiras, que também são rebelados,/ Finalmente são aqui desbaratados.

 

 

 

 

 

   Perante tais monstruosidades filocastelhanas, e a barbárie inquisitorial, a reacção não se fez esperar.O fervor patriótico dos que viram gorados os seus intentos, ao serem obrigados a imprimir e publicar um texto completamente desfigurado, levou-os -  Manuel de Lira e Frei Bartolomeu Ferreira -  a fazer sair clandestinamente dos prelos a edição prínceps, apenas com a gravura da portada invertida e algumas alterações. E passou de tal modo despercebida, que só meio século mais tarde, é que Faria e Sousa se apercebeu que eram diferentes os dois exemplares que possuía, como sendo ambos da edição prínceps.( LUSIADAS DE LUIS DE CAMOENS, Madrid,Iuan Sanchez, 1639, Tomo IV,col.31, comentário à estrofe XXI do Canto IX).Pensou que um deles seria de uma segunda edição;mas não notou as diferenças da gravura; essas só no século XIX é que foram descobertas.

    Como acima se deixou dito, foi em 1586 que a gravura, tal como se apresenta na edição prínceps, foi utilizada pela última vez e por António Ribeiro. Nesse mesmo ano, este impressor imprimiu juntamente com Manuel de Lira o Catechismus Christianae Fidei. Ora,estando aquela gravura em poder do seu colega e parceiro, nada mais natural que colaborasse com Manuel de Lira na reposição da verdade histórica, cedendo-lhe a famosa gravura. Por isso, a falsa primeira edição- a do pelicano com a cabeça virada para a direita do leitor -  foi impressa depois de 1584 – ano da edição dos piscos -  e também depois da impressão da mencionada obra do grande impressor António Ribeiro-1586.

     Faria e Sousa, na edição acima referida e que o saudoso professor Pina Martins considerava “ a mais valiosa ed. de todos os tempos da nossa epopeia nacional ( OS LUSIADAS, 1572-1972, CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO BIBLIOGRÁFICA… BIBLIOTECA NACIONAL DE LISBOA, 1972, pág.91), escreve “ i en Portugal , adonde rara vez se imprime un libro dos vezes, se tiene impresso este tantas , que no las sè todas. Esta que fuè del Poeta , otra que dizen se hizo por orden de los Padres Jesuitas, muy viciada, porque le trocaran estancias por outras, i alteraron en algunas” ( obr. cit,col.546, comentário à estrofe CXXVII do Canto X ). 

   Não sabemos, com segurança, se foram os jesuitas os autores das atrocidades cometidas na nossa epopeia nacional, com eventuais intuitos pedagógicos. Sabemos, porém, que da mesa censória fazia parte um jesuíta, o padre Jorge Serrão ( 1527- 1590), mestre em Artes e doutor em Teologia, que  foi cancelário, reitor e professor de Teologia na Universidade de Évora ( Pe. João Pereira Gomes, SJ., Jesuítas, Ciências & Cultura no Portugal Moderno, Esfera do Caos, pág.275). O que não podemos ignorar é que, em ambas as edições, a pessoa que dá parecer para a mesa censória é a mesma: FREY  BERTHOLAMEU FERREIRA.

  E como são diferentes os dois pareceres ! Enquanto na princeps, o frade dominicano dá o seu aplauso à obra, enaltecendo-a, assim como ao seu autor, na dos “Piscos”, percebe-se perfeitamente que está, como hoje se diria, a fazer um frete; pois, se o não fizesse, estaria, com toda a certeza, a contas com o tribunal inquisitorial. É a este homem que devemos a publicação da nossa epopeia nacional, tal como o poeta a mandou para o impressor. É por isso que Pinharanda Gomes escreveu:…” entre eles sobressaindo o nome do dominicano Bartolomeu Ferreira cuja obra como qualificador e censor bem merecia ser compilada a partir dos livros acerca dos quais deu parecer. As principais obras portuguesas editadas no seu tempo, como OS LUSÍADAS, de

Camões, beneficiaram da sua leitura e das suas recomendações. Não foi o inquisidor literário que alguns quadrantes ideológicos propagam, bastando considerar que argumentou a favor da impressão do canto IX de Os Lusiadas, contra o que seria geral opinião acerca das vantagens ou desvantagens de dar corpo impresso a esse Canto” (Os Conimbricenses, Guimarães Editores,pág.107-8).
    Numa análise perfunctória das três primeiras edições so século XVII – 1609, por Pedro Crasbeeck, 1612, por Vicente Aluarez e 1613, por Pedro Crasbeeck- dedicadas a D. Rodrigo da Cunha, todas foram impressas, tendo por modelo a edição prínceps. Contudo, o Morgado de Matteus, na sua tão famosa como valiosa edição,de Paris, de 1817, seguiu a falsa primeira edição, por se ter convencido que era essa a edição prínceps e ambas de 1572.  É o que resulta da leitura da sua Advertência e da confrontação do texto da sua edição com a prínceps.

     Não posso silenciar que o que se deixa escrito, apesar do doutamente expendido no ”Dicionário de Luis de Camões”.

     Embora a obra do imortal CAMÕES tenha lugar captivo na minha mesinha  -de - cabeceira, e bastantes dos seus sonetos estejam permanentemente na minha memória, eu não me sinto à altura para falar de tão enorme figura.Termino, transcrevendo o que o seu amigo Diogo do Couto nos relata na sua OITAVA  DÉCADA :  “ Em Moçambique  achamos aquelle Principe dos Poetas de seu tempo, meu matalote, e amigo Luiz de Camoens, tão pobre que comia de amigos, e pera se embarcar pera o Reino lhe ajuntamos os amigos toda a roupa que houve mister, e não faltou que lhe desse de comer, e aquelle inverno que esteve em Moçambique, acabou de aperfeiçoar as suas Luziadas pera as imprimir, e foy escrevendo  muito em hum livro que hia fazendo, que intitulava Parnaso de Luiz de Camoens, livro de muita erudição, doutrina e Filosofia, o qual lhe furtaraõ, e nunca pude saber no Reino delle, por muito que o inquiri, e foy furto notável, e em Portugal morreo este excelente Poeta em pura pobreza”. ( Tomo III, Lisboa Ocidental, Officina de Domingos Gonsalves,impressor dos Monges Descalços desta Corte, 1736, pág.404)

 

domingo, 24 de novembro de 2013

António Corrêa d'Oliveira - Fernando Pessoa

                                         COINCIDÊNCIA   OU   TALVEZ   NÃO
Na sua celebérrima obra,editada em 1934 -   a  MENSAGEM - , Fernando Pessoa publicara o poema Mar Portuguez:
                                 Ó MAR SALGADO, QUANTO DO TEU SAL
                                  SÃO LÁGRIMAS DE PORTUGAL !
                                  ……………………………………………………………….



Em 1902, no seu livrinho, intitulado  CANTIGAS,               António Corrêa d’Oliveira escrevera:
                                     Ó ondas do mar salgado
                                     D’onde vos vem tanto sal?
                                     Vem das lágrimas choradas
                                     Nas praias de Portugal   

  

sábado, 25 de maio de 2013


                                             DIOGO  DE     -  II

 

 

      Há quem afirme que António de Sá – que, segundo Castanheda, era de Santarém -  era irmão de Diogo de Sá, baseando-se em Faria Y Sousa, que, no tomo primeiro da sua “ ASIA “, escreve : “ Ocasion fue esta  en que mostraron ilustre valor  Don Vasco, y Jorge, y Fernando, y Miguel de Lima; Leonel, y Ruy de Melo: y Antonio, y Diego de Sá hermanos”( Asia Portuguesa, Tomo I,

Lisboa, Henrique Valente de Oliveira,1666, pág.234). Faria Y Sousa transcreveu erradamente a passagem acima citada da Década Terceira de João de Barros. Não é Diogo de Sá que é irmão de António de Sá, é Rui de Mello, como, aliás, Faria y Sousa refere noutras situações, e resulta das transcrições acima feitas,

quer de João de Barros, quer de Fernão Lopes de Castanheda. Mas, para que não

            restem dúvidas de interpretação do citado texto de João de Barros, transcreve-se    da mesma Década o que se segue : “ Dom João neste tempo tinha repartido a guarda da fortaleza em estancias, de que estes erão as principaes pessoas, dom Vasco de Lima, Jorge de Lima, Rui de Mello, Antonio de Sá seu irmão, João Rabello feitor, Duarte de Faria & Antonio de Serpa..”( ob. cit. fól.239).  O Rui de Mello, em Setembro de 1558, vivia em Cananor, casado com uma filha deDuarte Barbosa e o António de Sá, em 1559, ainda era capitão de uma galeota ( Diogo do Couto, Decada Setima da Asia, Pedro Crasbeeck,1616, fól.102 e 106,respectivamente).

        Simão Botelho, vedor da Fazenda da Índia, em carta a D. João III, datada de Baçaim, de 24 de Dezembro de 1548, escreve que “ este Antonio de Sá é filho de um clérigo do Porto e de uma freira, e matou já um homem à traição, e há poucos dias que matou aqui um negro da terra, sem se fazer justiça dele, e

vive nesta terra à sua vontade com uma aldeia que lhe aforou António Rodrigues de Gamboa por duzentos pardaus, e ela rende perto de mil pardaus: escrevo isto a Vossa Alteza para que saiba os trabalhos com que o servem nestas partes seus oficiais”( Textos sobre o Estado da Índia, Publicações Alfa, pág.42) .

     Gaspar Correia alude a duas pessoas com o nome de António de Sá :   Estando n’estas cousas , n’esta noyte entraraõ  dous catures que de Baçaim mandou Gracia de Sá: em hum Antonio de Sá, o Rume d’alcunha; e no outro Antonio de Sá, ambos sobrinhos  de Gracia de Sá”. ( obr. cit. Tomo IV,parte I, pág.51). Um deles é filho de Francisco de Sá e morre em consequência dos ferimentos sofridos no cerco de Diu ( Segundo Cerco de Diu, obra publicada e prefaciada por António Baião, 1927,pág. 100). O que tem alcunha de rume será  o que em 1559 ainda era vivo, segundo Diogo do Couto e será o que vem referido na carta citada de Simão Botelho e terá sido “filho de um clérigo do Porto e de uma freira”? O que significaria  que, ou clérigo ou a freira, um deles era irmão do capitão Francisco de Sá e de Garcia de Sá -  que depois foi governador da Índia 1548-1549 -, que são filhos do acima referido “ segundo “ João Rodrigues de Sá (João de Barros.,Década Terceira, Jorge Rodriguez,1628, fól. 53). Sendo Fernão Eanes de Soutomaior o capitão de Cananor, os cronistas,

          assim como referem que Diogo Reinoso, Francisco Reinoso e Antonio de Souto

         Maior são  filhos daquele capitão, também diriam que António de Sá, conhecido pelo rume, também era seu filho, o que não acontece. O mesmo se passa com o Diogo de Soutomaior, que escapa ileso no cerco de Diu e que em1550 ainda se encontrava em terras do Oriente, como acima se demonstrou. Por isso, não devem restar dúvidas de que o Diogo de Sá, que andou pelo Oriente, entre 1515 e 1527, não é filho de Fernão ou Fernando Eanes de Soutomayor, nem é o mencionado Diogo de Soutomayor do segundo cerco de Diu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       João Paulo Oliveira e Costa escreve que “ os irmãos António de Sá ( o Rume), Henrique de Sá e Rui de Melo eram filhos de Gomes de Sá e de Teresa de Lima ( Mare Nostrum, Temas e Debates,2013,pág. 456) . Assim sendo, o António de Sá, de que fala Simão Botelho na sua carta, não pode ser o António de Sá ( o Rume) cujo filho, Henrique de Sá, foi capitão das Molucas ( 1562-1564).

Já agora acrescenta-se que, para além daqueles três filhos, Diogo de Reynoso, Francisco de Reynoso e António de Soutomayor, Fernando Eanes de Soutomayor teve, pelo menos, mais um, com o nome de Luis de Sottomayor, que foi frade dominicano, lente de Sagrada Escritura em Coimbra e delegado ao concílio de Trento, falecido em 1610. O qual nascera em Lisboa, em 1526, filho daquele capitão de Cananor e de Mayor Diaz de Aguiar, filha de André Diaz de Aguiar Botafogo, Adail de Tânger, e neto de Gomes Ferreira, porteiro mor de D. João II e de D. Manuel, casado com D. Mayor de Sottomayor, filha de D. Pedro Alvares de Sottomayor, conde de Caminha ( Barbosa Machado, Biblioteca Lusitana, Vol. III, pág.139).

 

António Pais - autor da carta inserta na obra “ De Primogenitura”, impressa em Paris em 1551, acima transcrita - refere que Diogo de Sá era um cavaleiro verdadeiramente nobre, oriundo da uma antiga e nobre família, e que a sua fama de matemático, teólogo e jurista tinha precedido a sua pessoa. E acrescenta “ com os teus livros agora publicados facilmente poderei demonstrá-lo- haec enim ex tuis libris in lucem editis de te coniicere poteram” .Daqui é legítimo inferir que a sua formação académica

      foi adquirida antes de 1549, data da publicação da primeira obra. E a mesma conclusão ressalta do que a seguir se transcreve : “ Na ordem dos Mathematicos estão o Sabio Pedro Nunes, Diogo de Sá, Francisco de Mello, e Fr. Lucas de quem faz esta memoria em sua Arithemetica Gaspar Nicoláo,fol.LIV da terceira impressão em 1551” ( Francisco Leitão Ferreira, Notícias Chronologicas da Universidade de Coimbra, Segunda Parte, Vol. I, Coimbra,1938, pág.368). No entanto, não é conhecido qualquer documento que demonstre, sem margem para dúvidas, a sua passagem por qualquer estabelecimento de ensino, tanto em Portugal como no estrangeiro. O que não significa que o não tenha feito. Fê-lo, com toda a certeza, mas depois de ter regressado do Oriente.

          Se em 1517, é tratado por moço de câmara do rei, é legítimo concluir que Diogo de Sá deve ter nascido nos primeiros anos de quinhentos, embora desconheçamos o ano e os seus progenitores. Quanto a estes, o autor da mencionada carta di-lo oriundo de uma nobre e antiga família. O que é confirmado por António Caetano de Sousa, quando escreve: “ A Varonia desta Casa he Sá , antiga neste Reyno… Delle achamos muitos fidalgos mais antigos, que Payo de Sá, que viveo pelos annos de 1300, reynando D. Diniz: porem nelle começaõ os Genealogicos a deduzir esta família, fazendo o tronco dos deste appellido. Delle foy segundo Neto João Rodrigues de Sá, conhecido pelo nome das Galés, Senhor de Sever, etc, .

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Alcaide Mór do Porto, e Camareiro Mór de ElRey D. João I, casou com Dona Isabel Pacheco, filha de Diogo Lopes Pacheco, Senhor de Ferreira de Aves” ( Memorias Historicas e Genealogicas dos Grandes de Portugal, Antonio Isidoro da Fonseca, M. DCC.XLII, páG. 42-3). Este Joáo Rodrigues de Sá será o antepassado do “segundo João Rodrigues de Sá, como lhe chama João de Barros, que casou com D. Joana de Albuquerque, pai dos mencionados Garcia de Sá, Francisco de Sá e também de Brites de Albuquerque, que casou com Lopo de Sousa, pais do já mencionado e celebre Martim Afonso de Sousa ( António Caetano de Sousa, Serie dos Reys de Portugal,Ofiicina Sylviana, M.DCC.XLIII, pág.147). Por isso, tudo leva a crer que Diogo de Sá também entroncará naquele ramo e, por conseguinte, será parente daqueles célebres capitães, que se notabilizaram no Oriente, tendo sido dois deles governadores da Índia, embora, primeiro o sobrinho- Martim Afonso de Sousa  - e, depois, o tio - Garcia de Sá. E mais não sabemos, no que respeita às suas origens.

      Diogo de Sá foi moço de câmara do rei Venturoso. De onde se infere que, antes de embarcar para o Oriente, vivia na corte. Onde deve ter convivido com Damião de Góis. Pois, este, em 1511, já lá se encontrava e lá viveu durante dez anos. Nesses tempos ainda vivia na corte Cataldo Sículo, que D. João II havia convidado para instruir o seu filho bastardo D. Jorge. Por isso, faz todo o sentido pensar que Diogo de Sá também foi instruído por aquele humanista, juntamente

            com Damião de Góis e os demais moços da corte. Entusiasmado com os relatos

           que chegavam à corte, dos feitos de Afonso de Albuquerque e empolgado com

as novas do embaixador Mateus do Preste João, chegado em 1514, Diogo de Sá decide embarcar para a Índia e, possivelmente, deve ter ido na armada que levava o sucessor do seu herói e que largou do Tejo a 7 de Abril de 1515.

     Como acima se deixou dito, a última referência dos cronistas da Índia a Diogo de Sá situa-se no ano de 1526. É possível que o ambiente de guerra entre facções, que se seguiu à morte do governador D. Henrique de Menezes- 1524-1526-, o tenha desencorajado a continuar do Oriente e tenha regressado ao reino.

sábado, 6 de abril de 2013

DIOGO DE SÁ


 

                                    D I O G O    DE   S Á

 

 

 

68 – DE  NAUIGATIONE  LIBRI  TRES : QUIBUS  MATHEMATICAE DISDIPLINAE EXPLICANTUR : AB IACOBO À SAA EQUITE LUSITANO  NUPER IN LUCEM EDITI.  PARISIIS.  EX OFFICINA REGINALDI CALDERII , & CLAUDII EIUS FILII. 1549. CUM PRIVILEGIO REGIS. 

 

 

69 -  DE  PRIMOGENITURA  TRACTATUS SUPER DIFFICILI & SATIS TRACTATA QUAESTIONE PER ANTIQUOS & NEOTERICOS DOCTORES, NA FILIUS SECUNDOGENITUS PRAEFERENDUS SIT NEPOTI EX PRIMOGENITO MORTUO, VIVENTE AVO. ET NOVITER STANTE DISPOSITIONE LEGIS MENTALIS LUSITANIAE, QUIS EORUM SIT PRAEFERENDUS, AB IACOBO ASAA EQUITE LUSITANO NUPER IN LUCEM EDITUS.  PARISIIS,  APUD MARTIN UM IUUENEM, SUB INSIGNI D. CHRISTOPHORI. CUM PRIVILEGIO REGIS. 1551.

 

    Estas duas obras tão distintas  -  uma sobre a navegação e a matemática e outra sobre o direito de família – , ambas impressas em Paris, foram escritas por Diogo  de  Sá. Quem foi Diogo de Sá?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    O grande João Pinto Ribeiro, um dos conjurados de 1640, que foi Juiz de Fora em Ponte de Lima e em Pinhel, Desembargador do Paço e Guarda-Mór da Torre do Tombo, na sua obra “  Preferencia das letras às armas “, publicada em Lisboa por Paulo Craesbeeck, em 1645, escreve:

  Quem mais conhecido por seus escritos, que Diogo de Saa? Diga-o o seu livro de primogenitura, diga-o o de navigatione, impressos em Paris ; este no anno de 1549 , aquele no de 1552( desconhecia a 1ª edição). Achase em seu principio huma carta de Antonio Paes portuguez, em que testemunha deverse ao valor deste varão douto aquella grande victoria, que vinte Gallès Portuguesas  alcançaraõ em Chaul  de settenta e tres do grão Turco.Não o retardaraõ  as letras nesta empresa, mas aplicando às penas das sciencias as armas, fez que, propondo-se premio a primeira gallè, que tomasse terra do inimigo, voasse a sua , & o ganhasse. Em Baçaim, a quem defendiaõ dez mil Turcos com grande com grande copia de artilheria, & petrechos militares, dar elle a morte por sua mão ao Capitão Turco, foy causa que trezentos Portugueses tivessem daqueles inimigos hum glorioso vencimento. Testemunho foy de seu valor a Ilha de Beth, chamada dos mortos, por morrerem alli à mão do Portuguezes os muytos Turcos, que nella alojavaõ. Com sua industria  se abrazaraõ em Choromandel dous lugares, e foraõ rendidas doze Naos de turcos, que alli andavaõ infestando a nova Christandade. Taes proezas obrou em doze anos, que naquelas partes militou”. (Obras Varias compostas pelo Doutor João Pinto Ribeyro, do Conselho de Sua Magestade, e Dezembargador do Paço. Parte Segunda. Em Coimbra, Na Officina de Joseph Antunes da Sylva, M.DCCXXX,pág. 188-9).

   É óbvio que os factos descritos não se encontram na mencionada carta  - que já não vem na edição de 1606.Mas João Pinto Ribeiro tinha conhecimento dos mesmos e sabia que Diogo de Sá havia estado doze anos na Índia e, da forma como o refere, infere-se que terá sido num único período, isto é, que permaneceu no Oriente doze anos consecutivos . Ora, Gaspar Correia refere que, no ano de 1517, se encontrava na Índia “Diogo de Sá, moço da camara d’ElRey, em huma barcaça”( Lendas da Índia, Livro II, Tomo II-Parte II,1861, pág.488). E este autor fica-se por esta referência a Diogo de Sá, moço de câmara do rei e capitão de uma barcaça. João de Barros, por sua vez, escreve: “ … que mandasse fazer a fortaleza de Sunda; pelo que Lopo Vaz lhe mandou aprestar logo huma Armada de seis vélas, de que eram dous galeões, em hum dos quais hia Francisco de Sá, e D. Jorge Tello de Menezes no outro, e Diogo de Sá em huma galé, Antonio de Sá em huma galeota, e Francisco Mendes de Vasconcellos em huma caravella, e Duarte Coelho em hum bargantim” ( Quarta Decada da Asia. Madrid, MDCXV, pág. 44). E Fernão Lopes de Castanheda  também a ele se refere nesta passagem da sua obra :” Jorge de Lima, Lionel de melo, Fernão de lima, Diogo de sá & dom Miguel de linma que todos eraõ  muy esforçados, & nesta guerra  fizeraõ feytos de muy assinada valentia & mataraõ muytos mouros”( Historia do Descobrimento  e Conquista da India pelos Portugueses, Livros V,VI,VII,VIII e IX, Lello & Irmão,1979, págf.280)

 

 

 

    Os factos que se deixam descritos ocorreram nos anos de 1526 e 1525. O que demonstra que Digo de Sá ainda se encontrava ao serviço do rei na Índia. Os citados cronistas não se referem em qualquer outra parte das suas obras a Diogo de Sá. Não será despiciendo lembrar que o mencionado António de Sá era de Santarém e, em 1504, foi nomeado feitor de Cochim, segundo escreve Castanheda na citada página e Francisco de Sá era do Porto, filho do segundo João Rodrigues de Sá, alcaide-mór daquela cidade e senhor de Matosinhos e das terras de Sever, Baltar e Paiva, segundo Diogo do Couto -  que nunca se refere a Diogo de Sá (Decada Quarta da Asia, Pedro Crasbeeck,no Collegio de Santo Agostinho,Anno MDCII,fól.5). Será Diogo de Sá irmão de Francisco de Sá? Ou entroncarão ambos no primeiro João Rodrigues de Sá? Em vez de irmãos, serão primos? Os genealogistas que se ponham em campo. Certamente, quer um quer outro, são primos do Poeta do Neiva!

     Do que parece não haver dúvidas é que esteve doze anos na Índia, como nos informa o ilustre conjurado de 1640.Se, em 1517, era ainda moço, isso significa que deveria ter chegado à India há muito pouco tempo. E, se andou por lá doze anos, deve ter regressado antes de 1530. Aquele que alguns lhe apontam como pai – Fernão Eanes Sottomayor – foi na armada de Martim Afonso de Sousa, em 1534, e com ele embarcou também Garcia d’Orta. Com Fernão Eanes Sottomayor devem ter embarcado os dois filhos, António de Sottomayor e Diogo Reynoso, aos quais, e nessa qualidade, se referem com frequência, João de Barros, Gaspar Correia e Diogo do Couto. O Diogo Reynoso morreu no dia de S. Lourenço, a 10 de Agosto de 1546, no segundo cerco de Diu, na explosão do baluarte de S. João, em que se salvou “ dom Diogo de Souto Maior, que voando polo ar com a força do fogo cayo dentro na fortaleza com uma lança nas mãos por que veyo escorregando ate o chão onde ficou, sem lesão alguma” como narra Diogo do Couto, na sua Década Sexta (Pedro Crasbeeck,1614, fól.39). Não é de crer que o Diogo que morreu fosse irmão do Diogo que se salvou! Ou que Fernão Eanes Sottomayor tivesse dois filhos com o nome de Diogo! Já agora também se faz constar que o outro António de Sá, conhecido pelo Rume, de que falam os nossos cronistas do Oriente, era moço de câmara de D. Manuel e, em 1502, na viagem para a Índia, foi armado cavaleiro pelo Almirante dom Vasco da Gama ( João de Barros, Decada Primeira da Asia, Jorge Rodrigues, 1628, fól.116). Por isso, quer um, quer outro, não podem ser filhos de Fernão Eanes Sottomayor, como se pretende fazer crer. E, dada a grande diferença de idade que devia existir entre os dois António de Sá e Diogo de Sá, tendo em conta os factos que a seu respeito se deixam narrados, também este não era, com toda a certeza, irmão de qualquer deles. Nem o acima referido Diogo de Souto Maior, que se salvou no segundo cerco de Diu, pode ser o Diogo de Sá, autor dos mencionados livros, pois que três anos após aquele grande evento bélico, estava a publicar em Paris o” De Navigatione Libri Tres”! Aliás, quando o aludido Fernão Eanes Sottomayor, embarca para a Índia em 1534, na armada de Martim Afonso de Sousa, Diogo de Sá, tudo indica, já tinha regressado daquelas paragens há vários anos.

 

 

 
FRANCISCO  MARQUES

quinta-feira, 15 de novembro de 2012


 

 

                                           AS  RIMAS  DE  LUIS  DE  CAMÕES

 

 

 

    Tanto quanto me é dado saber , a terceira edição das Rimas foi impressa em Lisboa, em 1607, por Pedro Crasbeeck. Só que aparecem duas versões distintas. Uma ostenta no rosto a esfera armilar e outra  o escudo das armas de Portugal. O catálogo da biblioteca de  M. Fernando Palha descreve-as sob os nºs 1618 e 1619, respectivamente. A sua descrição coincide com a que o saudoso Prof. Pina Martins faz  em    OS  LUSÍADAS , 1572-1972, CATÁLOGO  DA  EXPOSIÇÃO BIBLIOGRÁFICA, ICONOGRÁFICA E MEDALHÍSTICA DE  CAMÕES”, 1972.pág.61. Nos exemplares aí descritos , o da esfera tem apenas quatro fólios preliminares, não numerados, enquanto o do  escudo de armas  tem oito fólios. No entanto, os exemplares que possuo, de uma e outra versão, apresentam-se com os sete fólios subsequentes, não numerados, perfeitamente iguais, quer do ponto de vista gráfico quer ortográfico. Enquanto os fólios numerados – 202- se apresentam com assinaláveis diferenças, quer gráficas, quer ortográficas. Mas a taboada apresenta-se com igual grafia, embora com algumas variantes ortográficas. No entanto, o que mais as distingue, para além frontispício, é a existência de mais um soneto na versão da esfera. Pois, enquanto esta tem 105 sonetos, a outra tem 104, embora o último desta seja também o último daquela. Á versão do escudo falta o soneto que na da esfera tem o número 104. Mas, o mais curioso é que a taboada menciona-o, apesar de o não trazer. Pois, no fólio 27 apenas aparece um soneto e último - o 104 -, enquanto na versão da esfera, o fólio 27 trás dois sonetos - o 104 e o 105.Por isso, - pelo menos, nestes dois exemplares da minha biblioteca – não “ há  uma correspondência perfeita quanto ao texto de cada página “, como refere aquele ilustre e saudoso Professor.

     Pedro Crasbeeck – o maior impressor em Portugal nos finais do século XVI e primeiro quartel do século XVII – ao imprimir a “Côrte na Aldeia” de Francisco Rodrigues Lobo, em 1619, fez uma edição ordinária e outra mais luxuosa, como refere Ricardo Jorge, em “Francisco  Rodrigues Lobo” pág.394. Da mesma forma, estou convencido, fez com as “Éclogas”, publicadas em 1605. Pois, além do conhecido exemplar com a lindíssima gravura  com os pombos voando sobre os montes, eu possuo um exemplar em que esse frontispício é substituído por um muito singelo, com uma gravura muito parecida com a  do “Pastor Peregrino” impresso em 1608, também por aquele famoso impressor. Por isso, não é de excluir que Pedro Crasbeeck tenha feito em 1607 com as “ Rimas “, aquilo que tinha feito antes com as “ Éclogas”. E aproveitou para incluir, numa delas, um soneto, que, entretanto, lhe teria chegado às mãos, como sendo da autoria do nosso imortal Camões.